segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sá

Ô-Sá
Camará
Saca
Que-essa-boca
Está-seca-e-salgada
De-tanto-guardar
Essa-língua
Maldita-e-afiada
Que-insiste-em-teimar
Contra-o-mar
De-dente

Sá
Camará
Dá-sá
Que-essa-garganta
Está-seca-e-cansada
De-tanto-aguardar
Aquele-grito
Adiado-e-abafado
De-quando
O-carnaval-chegar...


6/01/11

Ps:Saudações ao poeta Conrado Segal de Araújo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O ranger do rio raso

Envelhecera bastante a idade dos dentes desde que lhes prometera contar.

domingo, 11 de abril de 2010

O resquício do rio raso

Imagine você que meu corpo esteja composto de pequenos canais, semelhante a uma rede de esgotos. Logo pensará que isto é uma metáfora para as minhas veias e que com isso quero dizer estar imundo o meu sangue.

Imundo estou todo eu.

Há terra sob minhas unhas, meus dentes estão amarelos, e deles falarei depois, mais longamente. Meus cabelos secam e empalidecem. Minha pele resseca e minha boca seca, sequer diz.

Calada assim, ela mente.

E eu finjo minha sinceridade com o olhar de um simplório culpado.

Hei de duvidar, contudo de tudo isso. E eu mesmo não me culpo.

Embora parte, entretanto alheio à minha vontade, dentro de mim, encarcerado, vive alguém do tamanho exato dum pequeno demônio.

Não posso dizer que seja mesmo mau. Nem bem digo que me faça.

Dentro de mim ele passeia e se ri.

Quando minto, ele estica o braço, atravessa-o por minha garganta como um soco, de baixo pra cima, que vai explodir no teto do meu corpo. E assim ele passeia dentro de mim, com violência.

Não contente, após o golpe estrondoso, seus dedos se abrem e da minha nuca até a altura de meus olhos ele arranha com suas unhas, roídas e sangradas, com pontas mal comidas. E assim ele se ri dentro de mim, com benevolência.

Não contente, quando digo uma verdade ele encolhe o braço e fazendo uma cadeia com seus dedos ossudos e tortos à maneira de um garfo vítima de charlatanismo, abraça meu coração, quase acariciando-o, mesmo que o fizesse gelar esse toque traiçoeiro.

Logo o abraço doía e doía, e o coração sofria um aperto e outro aperto.

O sangue imundo se inundava e, assim, meu corpo latejava, ele todo um coração apertado por falanges falácias.

Logo pensará que isto é uma metáfora para o conflito entre razão e emoção e que com isso quero dizer estar vagando minha razão e sofrendo de qualquer tipo de paixão, concomitantemente.

Talvez esteja.

Talvez esteja mentindo.

O fato é que o cansaço exaustivo me dói por baixo dos pés, quando ele estica os dele e pisa os meus passos e os torna duas vezes pesado e preso.

Que me dói as costas quando ele se dependura em meu pescoço e me força carregá-lo, retirando-me além disso o ar sujo que me resta.

Está aqui ainda o pequeno diabo, usa meus dedos como luva e traz-me ânsia às articulações e parece estar queimando com o desespero a parte de baixo das minhas próprias unhas, roídas e sangradas.

É necessário parar por agora de atormentá-lo, pois.

Não pode crer. Eu mesmo o inoculei dentro de mim. Ele vem se fortalecendo e talvez, em breve suponho, me rompa por inteiro e saia voando como uma mariposa, levando consigo meu antigo sorriso de criança.

Conto depois como ele veio parar em meus aposentos.

Preciso antes contar-te da idade dos dentes.

Sã

Lembro do gosto do vinho chileno
e de como se parece com Neruda

Um tanto de embriaguez
necessária a qualquer poesia

Um cataclisma qualquer
que não sacudia minha cama

Que não acordou os meus sonhos
e que me deixou só com saudades

Teu nome é uma saudade, sã

E insano sou nas manhãs
chilenas, que apenas, durmo

Um tango um tanto só
revira-se em meus lençóis

Que dito quando o dia levanta
e seu nome deita em meus lábios

O gosto da boca é o silêncio.

segunda-feira, 1 de março de 2010

À sombra do chão

A cidade estava bonita. E como tudo, era ilusão e pó. O movimento veloz do ônibus nas ruas da madrugada, quase sem trânsito. As escuridões aninhavam as sujeiras, os restos, os lixos da cidade. As ruas pequenas e escuras escondiam as prostitutas com coração de pedra; os travestis com olhos de pedra; as ruas escuras viciadas, em pedras.

O pó correndo com o vento, nas sombras escuras das árvores à meia-noite.

As luzes pequenas, amarelas, maquilavam os policiais corruptos, de sorriso amarelo para as putas, os travecos, para quem fosse dono de uma nota de cinqüenta reais, amarela.

A cidade era silêncio. E um tiro de suspiro rarefeito soou no ar como a canção monótona de uma carreira pública. Pública e reta, se desejar pior.

A nota dissonante deitou num sonho um quase corpo de uma quase mulher.

Sentia o espírito leve, desprendendo-se, voando até.

Por dentro do corpo, corria a eternidade fugaz, o toque veloz da morte, do pó a retornar.

Tudo isso num instante.

Um instante fotografado da janela do ônibus

Ali mesmo, na folha que pousou no chão, e construiu debaixo de si, uma sombra.

Ali o ladrão? Ali o destino? Ali o segredo? Num momento?

Um momento.

...

...

...

Ali mesmo, na folha que pousou no chão, e construiu debaixo de si, uma sombra.

Ali, debaixo de si, na sombra.

Ali o ladrão! Ali o Destino! Ali os segredos todos! Num momento...

O relógio, a vida, o polícia e o ladrão, tudo num momento.

Ali mesmo, na folha que pousou no chão, e construiu debaixo de si, uma sombra.

Desenhavam o garoto movimentos teatrais. Conscientes. Desenvolvia-se em gestos pré-fabricados, como numa eterna cena de cinema. Os dedos correndo em direção ao interruptor, o indicador apontado, como a encenar novamente o toque divino da criação, nos altos do céu, no teto da capela Sistina. Prazer maior ainda em desdizer Dele: rodopiava como borboleta; os cabelos levemente subiram e desceram, pesando na cabeça, uma única vez; punha os olhos no botão; o braço que acompanhara o voltarete, achara em seguida a pele de seu par num clique. Clique!.Disse:

_ Faça-se a escuridão.

E o quarto enegreceu de temor perante as forças da física e da eletricidade.

Mancebo e velho, jovem de idade, vinte e cinco anos, gasto das noites não dormidas, dos conhaques mal envelhecidos, dos vinhos baratos e dos cigarros americanos, de nomes americanos, de tabacos americanos, câncer brasileiro. Devaneando, o coitado, deitado em lençóis sujos de um mês - marcas de café, de pé, de sexo - permanecia e ia-se embora.

Enojava-se do silêncio tão logo se surpreendia envolto em sua harmoniosa orquestra.

Tateava de lembrança os objetos do quarto. Pegava um vinil: Billie Holliday, o primeiro na fileira de discos. Como a ponto de agulha o tempo todo. Como a idéia de estar vivo e estar devidamente pronto a morrer, a qualquer hora, a toda hora, a mesma hora, hora, hora, hora, hora.....

_ Morri! À alegria viva dos condenados à morte, dos que também a tocaram! Viva! Viva!

E começava o monólogo louco, um pouco bêbado, um pouco mais no copo, ainda na mão: presente a si próprio, esquecido entre os dedos na saída do bar.

_ Sim!!! Eu, morto!

O canto de sua voz falando vinha ensaiado do gole que o antecedesse. Vodka e Coca-Cola. Reconhecera só ali a bebida. E seguia em seu ato de ladainha de todos os dias derradeiro:

_ Estou morto! Morto de idéias! Não que não as tenha. Tenho. Todas. Aqui !

E batia o indicador criativo na cuca. Indica a dor porque é onde bate que ela se está.

Toc!! Toc! Toc? Toc...

Ninguém respondia. Respondia ele:

_ Ninguém responde! Eu não respondo. As idéias me gritam e arranham no meu cérebro, mas as aranhas dos meus dedos enfeitam de teia a cadeia do punho fechado, do muro erguido e das chaves do toque.

Toca o jazz, trilha sonora da vida sinuosa, sintomaticamente escolhida a dedo, sem criatividade alguma, sem improviso algum, sem sentimento que seja, a não ser a saudade de repetir o que não se repete. Sim ! Vitrola maldita! Viola-me o dito. Veja como eu pego tua agulha! Veja !, como a trago para as bordas do teu prato faminto, de som, e repito, e repito e repito. O que nunca repete?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Encontro com o sol

Não é do meu feitio, mas aqui vai uma sincera homenagem.

Texto de Ramando Carvalho (http://ramandocarvalho.blogspot.com/)

"Tudo reluzia, os dentes imprimiam uma estranha imponência, como se as máquinas quisessem mostrar suas forças ao destroçar o que há de mais belo no ser humano.

A paz é um tesouro mais precioso que o sol de um verão tropical.

A tremidão que toma conta do ambiente, deixa minha alma igualmente tremula, sabendo que alguma poção mágica preparada em algum recanto imaginário do universo, nos livrará do surto epilético alimentado por nós mesmos.

Neste lugar não se precisa mais olhar nos olhos, pois uma força amaldiçoada nos disse para nos vendarmos diante do inexplicável. Quanto maior a trapaça, mais maldade se vê, é preciso fugir, carregando um sofrimento que não é seu.

Ver o outro está coisa difícil, somente quando a luz iluminar.

Os movimentos denunciam uma luta vacilante, contra um inimigo que nasce das redes emaranhadas incapazes de se lançarem ao mar. Brota, como imensos pomares, a inclinação à pobreza, que se transforma em um esforço em se prender e termina em menosprezo pela liberdade. Neste fantasma, nesses vultos humanos, o encontro do puro não se dá senão fora daquilo que serve como construção de mais um andar em nossa torre desastrosa, que de alta, peca em cair no primeiro sopro. Habitá-la, faz ver que não há paredes, mesmo assim não se pode sair à rua, terá que pagar por estar diante das estrelas, e essa moeda de ouro caiu no ralo há tempos e se desfez nos labirintos dos esgotos.

Imensos canais invisíveis parecem ligar os fluidos elétricos à química de seus corpos, transformado seu sangue em ácido corrosivo, a pressão acelera, em ritmo impreciso.

As asas conduzem somente a lugares invernais. Neste mundo, ensaiar um sorriso é o mais perto que se chega de seu sonho.

É preciso dormir se quiser tocar sua alma, desperto toca somente suas sombras.

As folhas dos galhos mais altos do espírito humano, em difusa transformação, viram monitores que ostentam um colorido hipnótico, um plasma opaco que se espalha.

Derreter o ferro e cunhar chaves, abrir o paraíso por detrás de uma porta empenada e descascada.

Não me quero curar desse mal, nascer doente é a pior das heranças. Fincar ancora nos filhos e deixá-los engolir por uma água podre. Eis o orgulho dos marinheiros do progresso. Em um batera de madeira cintilante, cercada por rochedos, um velho enfeitado com tecidos nobres diz:

- Não é esse o caminho!Não é essa a embarcação!

Contornar o infinito e seguir sem medo, pois temer é a causa da fadiga, deitar-se receoso não é o mesmo que estender-se em dunas de areia fina. O florescimento dos mais lindos botões se dá nos solos cansados de serem explorados, estação após estação, que gritam para a chuva cair. A obrigação de encravar em meu próprio peito o punhal da desilusão, faz jorrar antes do golpe sangue prematuro. Nos ouvidos ingênuos ecoa: Faça escravo do seu homem! E os braços cadenciam uma dança cotidiana e traiçoeira. A tristeza se empilha. Há tempos houve um dia nebuloso, e no instante do desassossego, riscou-se na nuca de cada criatura na terra: É um. E não será outro.

Nesses dias, anjos subiram montanhas, e em lágrimas, morreram de frio.

O gosto de pertencer a mundos talhados em aço cru produz em minha boca saliva empedrada. Lança-las no crânio cibernético e matar a força rastejante, alma sorrateira. Desejo dos loucos. A pétala originaria colori os pedaços verdes que cheiram a choro. Somos flores plantadas em terra rasa. A realidade engoli sonhos como um andarilho que há dias sem comida repousa em banquete farto. Li em um outdoor: Cave um buraco nas nuvens e descanse sua voz fraca.

É preciso comprar uma pá, as unhas e os dedos não lhe servem mais. Da bebida sangue da morte, transformei em vermelho do amor. Que pintou como artista sedento, êxtases cores, em todos os véus. Escrevo em lugar nenhum, no recheio da angustia, que embaralha, desenlaça e contorce e aperta. Temos medo. Por que não? Deus aceita meu presente.

Ele mora no céu. Acende a brasa do desejo, e em fogo eterno, folga lânguido e onipotente. Da janela, sob sua coroa diz como que segredo afável:

- Foge! Encontre o sol."


Sem correções ortográficas, cada cal com seus erros e acertos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Maresia audível em terra à vista

Onda do mar
Barco a vela

Paleta de cor que rasga a tela
Pinta de dor o retrato dela
Faça parar, a mão que martela,
Meu coração...

Passe por aqui, Não deixe de vir,
Quero seu sorriso sempre assim,
Quero seu gingado sambalançado
Pra mim.

De ouro é sua sandália,
Dourada rua,
Beija o ouro
Com a prata da lua
Deixa chegar a Carnavália,
Minha pele,
Na tua...

(Em parceria com Lionel Braga Netto)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O refluxo de um rio raso


Sonhou, certa vez, a menina, que estivéssemos nós, deitados, de mãos dadas, num rio raso.

O resto eu inventei: o sabor da água, o sabor do beijo, o sabor da lágrima...

Inventei que era noite, embora adormeça ao dia.
Inventei que o rio raso era o desamor. E que nós descansávamos nele...
Inventei que o descanso não maltratava. E que nós desferimos nossa pele.
Inventei que via o vento e sua canção. E que nós chorávamos juntos.
Inventei que era mau. E de fato o fui e sou. E que nós cortávamos os pulsos, e fazíamos o rio raso.


Sonhou certa vez a menina que eu, só eu, morria ao mar.

O resto eu retirei: o sabor da água, o sabor do espelho, o sabor da lástima.

Inventei que era eu e não ela, o barco do barqueiro.
Inventei que o rio raso me levou sozinho.E que eu era leve, ela não.
Inventei que desaguava de sonho em sonho. E que eu, tinha moedas demais pra navegar.
Inventei que naufragava dentro de mim mesmo. E que eu, era o rio raso, o barco e o mar.
Inventei que faltava-me, ainda, um pouco de (m)água. E que eu, beberia sem fim a alma das pessoas.


Despertou-me a sede, a escassez, desde que sonhou, certa vez, a menina, que estivéssemos nós, deitados, de mãos dadas, num rio raso.

O resto eu inventei.

Alteridade

Não nasci poeta.
Não.
Tão pouco tornei-me um.

Não me fiz poeta.
Não.
Tão pouco me diz um.

Não morri poeta.
Não.
Tão pouco assassinei-me um.

Não escrevi poemas.
Não.
Tão pouco declamei-me algum.

Nalgum poeta, morto,
sim,
deve estar minha alma.

Roubada.

Sem palavras.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Talvez

Eu' inda era
mas, agora há pouco,
eu deixei de ser.

Talvez eu erre
mas, ainda há pouco,
eu deixei de crer.

Talvez eu seja
mas, ainda há pouco,
eu parei pra ser

talvez um pouco mais,
um pouco mais,
um pouco mais,

de mim.

Talvez eu era
mas, ainda há pouco
eu deixei de ser.

Talvez eu erre
mas, agora há pouco,
eu deixei de crer.

Talvez eu seja,
mas, ainda há pouco,
mais ainda, há pouco

mais ainda, há pouco
mas, ainda,
mais ainda..

mas, ainda

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Devir

Fez melhor do que já vi.
Fez pior do que vier a vir.
Se viu o que é pra sentir,
que às seis o mar já vai abrir.
E, então errará, por se olhar...

Por querer se espalhar no mar,
como um espelho
prestes a se quebrar ...
Em ondas, em qualquer devir,
nesse ir e vir ... virá
meu corpo, o mar
Será melhor do que já vi..

(Em parceria com Nêgo Passarinho)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Viola

Atrás da viola toca o tocador
O diabo vive correndo atrás de nosso senhor
Atrás da bola corre o jogador
E do trabalho corro como brasileiro nato que sou

No baralho e na poesia é que eu gasto o meu suor
Atrás das horas todo dia minha noite fica bem maior
De tempo em tempo quando me lembro
Me meço e estou tão menor
Tropeço, esqueço, e sei no espesso vento seco
Que não estou só

Em frente ao sonho tem o sonhador
Reflete ao sol a cor e o silêncio
Na certa a luz do dia espera a noite amanhecer

Tropeço, nos dedos, os medos presos
Tento lento ser um tanto ou talvez melhor
Tropeço, acerto, eu sei, no espelho (sempre certo):
Mais de perto a carne vira pó.

(Em parceria com Lionel Braga Netto - 14/01/2007)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Reciclagem

Nesta sexta-segunda-feira

Resolvi arrumar meus cadernos

Num súbito de reciclagem exterior

Porque dentro não tem renovação

Arranquei várias folhas...

Só depois vi que todas elas

Falavam-me algo

Todas repetiam o que eu sentia

(Me) dizendo sempre

Palavras de auto-estima:

Viva, e deixe morrer.

25/01/02

sábado, 10 de outubro de 2009

Meu corpo, mosaico de mim mesmo.
Destas mentiras dissipadas
que me colorem.

Absorto, abstrato meio a esmo,
as verdades mastigadas
e cuspidas pelo éden!

A verdade e a virtude se perderam
no inferno daquele jardim!

Hoje em dia só se encontram
no cheiro monótono das cores verdes,
em cada espaço vago, se decompondo em meu corpo...

Viva Adão ! E viva Eva !
Viva o pão ! E viva a erva !

E morte, apenas morte, para o resto das coisas!

Pois só vive o que apodrece,
pois só morre o que acontece,
pois só se apreça o que é prece.

Chega a tosse, chega o escarro...
Que hora à hora
de mim descole, o que é pedaço.

10/06/2005

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Primeira estampa do Suicídio ao pé do ouvido.

Arte by Thiago Arruda
Stêncil by Thiago dos Santos

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Dominique


Dominique será castigada esta noite.
Estará no milho até que seus joelhos tenham tons líquidos, avermelhados e escorridos.
Dominique será castigada. Com chicote.
Os fios retornarão frios, batendo na pele quente da pancada. Sangrará até que suas veias sintam-se tão doídas, que se sentirão, elas mesmas, como que aditas às malditas serpentes encouraçadas.
E às próprias veias culpará, Dominique.
Dominique visionará a Verdade da Dor, em cada golpe necrófilo; em cada pulsação no corpo, absorto do tato, o próprio algoz.
Dominique sentirá culpa pelo que fez, pelo que não fez. Sorverá essa culpa nas lágrimas secas, que secarão tão logo brotem.
Brotará. A culpa.
Silenciará. A voz.
Omitirá qualquer grito gutural, qualquer discurso genial e prosódico.
Enlouquecerá, Dominique. Não será compreendida.
Duvidará, Dominique, do domínio, de deus.
Sorrirá incerta qualquer certeza em que cria. E olharás para elas, abandonada pelas mentiras, suas últimas amigas.
Só lhe restará o vinho. Que virou vinagre. Virará medicina, antídoto sem escolha para as marcas.
Marcará. O tempo.
Mascarado da primavera, com seus espinhos e ponteiros, marcarão a madrugada, a aurora, o toque primeiro, assim, de leve, a primeira flor vadia, que na rua amanheça, sem notar a própria presença...
Não durará o tempo desta imagem, Dominique!
Nem porque há...
Esquecerá descarnada o que é sentir, e sucumbirá, primeiro desatenta, logo após fingida de si, ao vinagre, que retornará ao vinho. Assim que pesar seu corpo malsinado, maltratado.
Lembrará do cigarro, do pulmão, do castigo ainda fresco, aromatizando o ar.
Riscará o fósforo, fitará o rosto da chama, com cara de pergunta - sem resposta.
Dançará com o fogo junto à boca.
Beijará o fumo, na falta dos lábios, inchados e latílubros. Penetrará a fumaça na garganta e o martírio estará de volta, como deve, espectral e assombrando.
Assombrará a noite solitária, o som calado do escuro do dia. Vazia, a casa parecerá e metamorfoseará-se no calabouço imenso do remorso.
Petrificará, Dominique, onde estiver junto a impossibilidade, o furacão que girará incessante a órbita dos seus olhos, ao redor do mundo circunferente.
De repente, respirará Dominique, o ar não fará mais sua vontade.
Negará o teu abrigo, lhe será hostil, como sempre foi, carcomendo as suas células, oxidando, respirando e fenecendo.
Fenecerá, Dominique, fenecerá...
Que quando o ar já não quer, não será deus, não serei eu, ou qualquer surpresa que não esboçará sequer minha pena.
Se o ar lhe negará, caberá a mim respira-lo, poluído de morte, poluído do carbono da cidade, da fumaça ainda ali, a dançar pelo ar, seu amigo.
Não mais lhe nega, nem abandona. De revés, ainda convida a uma valsa.
Valsará a Morte, sobre teu seio, comprimirá seus órgãos em um passo mágico, de tirar o fôlego.
Receberá lugar de conforto ao teu descanso.
Seu, em um canto da sala, há um pequeno baú, uma urna,em que estará seu monte de cinzas.
Nascerá de sua lareira esse cinzento monturo, do fogo escuro onde se irão, seus pés, seus cabelos, seu dedo anelar, divorciará-se o anel dourado, devolverá por melhor dizer, a tua aliança quebrada.
Apodrecerá esquecida, virando poeira, cinzeiro unívoco do uísque, que pagará em saudade e com o dinheiro sujo, que como sei, estará também sujo de lembranças.
Entenderá.
Saudade Póstuma não se mata, não se morre.
Dominique, beberá esta noite este veneno que sai de minha língua e estará condenada. Receberá destes cabelos ásperos as chibatadas da loucura. Ouvirá somente como último som, a minha voz, calada, madrugada.
Dominique! Beberás este veneno!
Morrerá!
E só então estará em equilíbrio cada pétala de flor : depois que o seu mudo e funesto corpo, cantar o canto triste da Morte.
Esperará, Dominique, se suicidando na visão do seu rosto envelhecendo, envelhecendo, diante do espelho, até envelhecer...
Esperará Dominique..
À meia-noite...




Modelo: Kamila Zanetti

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Eu sou assim
há tempos
imemoriáveis,
ou esquecidos...

Eu sou assim
faz tempo
Que já nem me lembro
o por quê disso...

Meus passos
São estes sonhos
em que bebo,
fumo,
ou simplesmente
rumo
de encontro
ao muro
que como criança
teimo em desafiar.

Por vezes derrubado,
Em outras tantas erguido.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ao pó permanecerá

Pode falar: o que é que você tem?
Além de Deus ter-me feito com desdém?
Nada. Nada que eu não resolva com café.
Nada que não se resolva com um pouco de fé.

Mas se eu perdi tempo, então hei de ir a pé.
Até achar o tempo, tempo que me disse até.

Que o melhor é estar em transe
Que a vida é estar em trânsito
Parar intensamente e recomeçar a andar.

Andar. A pé, ao léu...
Transitar. Até ao céu...

Pode falar: o que é que você teve?
Você não é Deus? O que é que te deteve?
Teve? Teve até uma desculpa...
- Desculpa, mas foi só.
Nem amor, nem o rancor. E foi só.
Você nasceu e nem deixou de ser pó!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Por entre a fumaça e o vinho
Por dentre os sons sem equilíbrio d'alta-noite
Ébrios
Deuses
Sonhos
Todos
Mundos
Corpos
Copos de leite
Doce deleite
Sonhar...

Ébrios ares
acres, doces
hálitos
fosse o vinho filante...

Deuses deram
o toque feiticeiro
e o tato inteiro tinha o cheiro
deleitoso do delírio.
Como lírios, papoulas
pelos
poros
florescia o louro dourado dos sonhos.
Caminhavam na escuridão
tornando sonho o que era chão!

Era arredia a onírica terra:
como a hera,
espalhou-se o espaço
debaixo dos seus pés...

Do espectral teatro
encenou -se o ato de despertar.
Tão perto o peito arfante,
Repleto antes de cor que de ar,
quedou-se do medo
vaporosamente em minha digital,
No curto silêncio dos meus dedos.

Ao som do susto
tateei com custo
meu próprio rosto,
meu próprio corpo.
E fui encontrá-los
nos olhos que me fitavam
Faziam fita, faziam cena,
fariam até cinema se soubessem cantar
os meus sentidos.

Perdido pelo alheio devaneio,
Num enleio entrelaçado
d'um permeio de loucura e fado,
de mãos dadas com as fadas da Beleza
Rompi a tísica vida,
Metafísica ferida,
pelas tuas unhas
quebrei a incerteza de estar sano;
Do meu crânio trouxe os negros panos,
trouxe os pratos,
pra vestir e mastigar
o alimento e o sustento.
Tirou o pó,
pôs retrato,
E fez de fato
Meu sopitado lar
a quimera além-matéria
de poder-te etérea,
eternamente
tocar.

Escrito por Carlos Batata, em um momento em que minhas mãos ficaram sem ar. Comentário de Isadora Machado.

Uma poesia onírica, talvez.
Postado originalmente em http://misantropolis.zip.net/index.html